Turista baudelairiana

Flâneur/Flâneuse significa, de uma forma romantizada, a pessoa que caminha pela cidade com o objetivo de explorá-la ou, simplesmente, senti-la. O termo foi cunhado por Baudelaire para se referir ao “observador da vida urbana”.

Quando viajo, adoro andar por toda a cidade e analisar os costumes, o cotidiano, a arte dos outros. Por isso, gosto de me intitular como uma flâneuse.

Meu programa preferido é sentar num parque/praça e ficar observando o vai e vem de pessoas. Engraçado pensar que esse vai e vem muda de um lugar para outro. Os hábitos são tão intrínsecos a gente e, raramente, compartilhamos os mesmos.

Como turista, nunca fiquei satisfeita em apenas visitar os pontos turísticos. Queria mesmo era viver o lugar em que estava. Seguir os passos dos habitantes locais. Saber como seria se eu morasse ali. Andar, respirar e pensar como uma local. Isso requer uma certa prática e perder-se é a regra principal.

Com 17 anos, realizei meu primeiro intercâmbio. Era a primeira vez que estava viajando sozinha e, ainda por cima, para um outro país. Fui para Vancouver estudar inglês e morar com uma família canadense por 6 semanas. Era o início da minha paixão por conhecer novas culturas.

Viajar é viver inúmeras experiências num curto espaço de tempo. É também uma mistura de decepções e pequenas vitórias.

Lembro a primeira vez que não fui compreendida em inglês. Quase morri de vergonha. Mas, também lembro da primeira vez que pedi uma refeição e fui entendida. Lembro-me claramente quando ninguém conseguia identificar minha nacionalidade. Nesse dia, senti-me quase uma local!

E mesmo nova, já sabia o que queria: perder-me por Vancouver. Foi me perdendo pela cidade que descobri lugares incríveis e que também conheci pessoas peculiares (nas quais fantasiei uma amizade eterna). Foi também em Vancouver que aprendi e comecei a ser uma flâneuse. Eu amei e nunca mais parei.

Desde então, decidi que quando viajasse seria uma turista baudelairiana. Uma turista que não é local, mas gosta de experimentar a cidade como se fosse.

DELF B2

Quando estava me preparando para realizar o DELF, senti falta de “relatos” pela internet. Encontrei um ou outro, mas nada muito detalhado que me ajudasse a entender melhor a estrutura desse teste de proficiência da língua francesa.

Como eu realizei o DELF B2 em Novembro de 2016 morrendo de medo, resolvi então deixar meu registro sobre todo o processo, desde inscrição até o recebimento do resultado.

Inscrição

Na cidade onde eu moro, a Aliança Francesa local não aplica o teste. Então, precisei sucumbir para a Aliança Francesa de Curitiba. Minha maior preocupação era ter que ir até Curitiba fazer a inscrição, pois na época estagiava o dia inteiro, estava terminando o TCC e isso só ia me tirar um dia útil da semana. Felizmente, entrei em contato com eles e consegui fazer a inscrição por email. Eles então me mandaram o formulário e a conta do banco em que eu deveria fazer o depósito do valor do teste (R$402,00). Basicamente, eu preenchi o formulário, scaneei o formulário, depositei o dinheiro, scaneei o comprovante de depósito, anexei isso tudo e voilà, era a mais nova inscrita para realizar as provas.

Preparação

A etapa de preparação foi a mais árdua, obviamente. Primeiramente porque estava com pouco tempo para estudar e segundamente porque não me sentia totalmente segura com o nível. Apesar de estudar francês desde 2010, ainda tinha dúvidas se meu nível era o B2.

Eu estudei francês sempre em alternância, parava e continuava, e nunca cheguei a frequentar, formalmente, uma classe de nível B2. Parei de estudar formalmente no B1, mas acabava sempre estando em contato com a língua francesa por meio de podcasts e leituras.

O que me ajudou médio na preparação foi um curso online (MOOC) que encontrei na época: Préparer et Réussir le DELF B2 et le DALF C1. Esse MOOC veio bem a calhar, porque não fazia ideia de como era o teste. Ali eles forneceram muitas informações e rolou vários simulados. Teve uma semana que eles proporcionaram até a correção de produções orais e escritas! Infelizmente, como tinha um tempo bastante contado naquele semestre, acabei não usufruindo tanto do espaço, mas peguei todas as dicas e macetes.

Compreensão oral:

Eu sentia que minha compreensão era ótima, então foquei bastante em mantê-la em um nível alto. Escutava rádio francesa diariamente. Além disso, comecei a escutar muitos podcasts e a ver canais de youtubers franceses.

O que me ajudou bastante foram:

Além disso, fiz alguns simulados online (jogava no google e fazia os que apareciam) e baixei o livro “DELF B2 200 activités” (mas não fiz as 200 atividades :p).

Compreensão de textos:

Lia muitas notícias em francês. Tudo que acabava recebendo em português ou inglês, por meio de redes sociais ou boca a boca, ia e procurava uma fonte da mesma em francês. Assim, eu sabia do que se tratava e estava praticando/enriquecendo meu vocabulário. Além disso, comecei a seguir muitas páginas francesas no facebook e muitas pessoas francesas no twitter.

O que me ajudou foram:

E, também, fiz simulados. Mas, para falar a verdade, fiz muito pouco. Fiz mais para conhecer o nível da prova e saber como as perguntas eram feitas. Porém, quando descobri que muitas perguntas eram abertas, eu gelei. Pensava que tudo seria questões de múltiplas escolhas. Foi aí que resolvi “voltar ao básico” e estudar/revisar mais gramática, já que estava um pouco bastante enferrujada. Para isso, eu usei meus livros antigos e alguns sites, como o blog “Parlez-vous français?“.

Produção oral e escrita:

Minha esperança para essas duas provas era: preciso pelo menos tirar o mínimo. Eu simplesmente não tinha condições de pagar alguém para me ajudar com isso. Uma única amiga que poderia me auxiliar, corrigir meus textos e conversar comigo, estava mais atolada do que eu em trabalhos e afins. Eu joguei para a sorte.

Claro que eu fui dar uma olhada em provas passadas e simulados para ver o que era cobrado. Então, acabei estudando “soluções prontas”. Sabia que na produção oral ia ter que defender minha opinião sobre um tópico qualquer. Estudei, portanto, muitas expressões de opinião, como concordar e descordar etc etc. Na produção escrita, sabia que tinha 99% de chances de ter que escrever uma carta, então estudei toda a estrutura da carta francesa. Estudei os modelos, algumas expressões chaves, o tipo de linguagem etc etc. Isso tudo foi bem fácil encontrar online, tem muito material disponível.

Uma coisa que fiz bastante foi falar francês sozinha sempre que podia hehe e algumas vezes me gravava para corrigir pronúncia e ver se estava falando “bonitinho”. Para a escrita não teve muito jeito não, eu acabei só lendo as propostas e estudando a estrutura das cartas, não “treinei” antes da prova.

As provas

Precisamente uma semana antes do teste, recebi um email com as datas e os horários das provas. Por sorte do destino, realizei tudo no mesmo dia.

Pela manhã (9h45min), eu fiz a prova de produção oral e pela tarde (12h às 14h30min), as demais provas.

A pior coisa foi que a apresentação do meu TCC era exatamente uma semana depois do teste. Então, eu estava duas vezes mais nervosa que o normal.

Produção oral:

Como dito anteriormente, tinha jogado para a sorte essa prova. E, por ironia do destino, eu realmente tive muita sorte.

Eu estava bastante nervosa. Eu vi algumas simulações da prova no youtube e fiquei apavorada quando percebi que deveria falar por volta de 20 min (?????). Eu sou EXTREMAMENTE tímida, não falo 20 minutos corridos nem em português, quem dirá em francês. Mas, treinei muito. Falei muito sozinha. Na semana de prova, gravava eu falando quase todos os dias.

Mas enfim, vamos lá. Eu cheguei na Aliança Francesa por volta das 9h25min (teoricamente deve-se chegar com 20 minutos de antecedência, mas eu já estava pelas redondezas desde 9h rs), apresentei-me na recepção e fui orientada a esperar até que me chamassem. Por brincadeira do destino, a minha examinadora estava livre, então fui chamada lá pelas 9h35min. Gelei quando ouvi meu nome tão antes do esperado. A mulher perguntou se podíamos adiantar a prova e eu, claramente, gritei um NÃO na minha cabeça, mas minha boca soltou um “Sim, claro, sem problemas”. Subimos até a sala e ela começou a me explicar (em francês, claro) como a prova funcionaria.

A mulher era extremamente gentil e gente boa. Era brasileira e o fato dela ter sotaque brasileiro me aliviou muito. Tenho uma certa noia com sotaques, então quando ouvi ela falando de um tipo “gente como a gente”, senti-me bastante confortável.

Ela pediu para que eu sorteasse 2 papeizinhos e neles estavam contidos um pequeno artigo. Eu peguei um sobre idosos voltando a trabalhar depois de aposentados e outro sobre o ambiente de trabalho ser mais aberto atualmente, isto é, muitas empresas não estão mais optando por divisórias, separações de mesa etc. Eu gostei MUITO dos dois temas. Mas, minha realidade de estágio me fazia ter MUITA opinião sobre o “novo ambiente de trabalho”. Então não hesitei em escolher esse artigo para fazer “minha defesa”.

O artigo em si já vinha cheio de opiniões. No meu caso, ele falava como esse tipo de ambiente trazia benefícios (você trabalha de igual para igual com o chefe e ainda por cima é mais fácil de passar informações) e desvantagens (muito barulho e pouca privacidade). Escolhido o artigo, eu tinha 30 minutos para me preparar. A mulher me deu algumas folhas, eu peguei minha caneta preta e voilà.

Eu odiava trabalhar em ambiente aberto. Então, já tinha toda uma defesa pronta que expunha minha experiência pessoal. Estava muito feliz, era um tema muito próximo da minha realidade e gostava muito de falar sobre isso.

No fim, acho que acabei levando bem menos de 30 minutos para me preparar. Escrevi todos os pontos que queria abordar, cronologicamente, juntamente com as expressões de opinião que tinha tanto estudado.

Bom, falei que estava pronta, fui sentar na frente dela, ela falou para eu começar e…foi uma conversa natural! Eu ia expondo as minhas opiniões e, volte e meia, a mulher ia interagindo comigo. Como você pode ficar com os papéis da preparação na sua frente, eu lia na caruda o que eu tinha escrito, mas sempre voltava o olhar para ela e procurava falar olhando bem nos seus olhos.

Acabei apresentando minha defesa em uns 10 minutos (deu para ver pelo cronômetro que ela colocou no celular). E, então, veio a sessão de perguntas. E olha, não foi complicado não. Foi novamente uma conversa. Ela ia expondo um pouco da sua opinião, QUE ERA IGUAL A MINHA

Eu sou bem tímida, mas me senti tão confortável conversando com ela que sai aliviadíssima da sala.

No fim, foi uns 8-10 min expondo minha opinião e dai uns 5-8 min da gente fazendo um “bate-papo”. Minha experiência não poderia ter sido melhor, sai super confiante e feliz daquela sala, pensando que tudo ia ficar bem e eu ia conseguir.

Compreensão oral:

Aqui é que mora o inferno. Lembra quando eu falei que minha compreensão era ótima? PFFFFFFF, lei do engano.

Basicamente, você escuta dois áudios: um de longa duração (tocado duas vezes, para o alívio de todos) e um de curta duração (tocado apenas uma vez).

Minha dica é ler bem as perguntas antes (você tem um tempinho para isso) para estar preparado e, assim, ficar com o ouvido atento. Como é uma caixinha de som para a sala toda, o som não é lá aquelas coisas. Então, outra dica é sentar no meio, nem tão próximo das caixas de som e nem tão longe. Mas mesmo assim, isso não salva o dia.

O meu problema foi com as questões abertas, teve uma que escrevi qualquer coisa só pra não deixar em branco, porque olha, não consegui entender. Não lembro bem dos meus áudios, o que eu lembro era que o primeiro foi uma entrevista bem longa sobre zoológicos e lei de proteção animal, algo assim. Já o segundo áudio nem lembro sobre o que foi, de tanto rancor que ainda guardo hehe

O que me quebrou as pernas foi não poder ter um rascunho. Dai escrevia/assinalava minhas “supostas respostas” de lápis para no final passar a caneta. Logo, perdi um certo tempo nesse processo e fiquei, digamos assim, bem nervosa. Jurava que ia ser disponibilizado um rascunho para isso, mas não.

O desespero foi grande. Como se já não bastasse o susto do primeiro áudio, que eu pensei ter conseguido responder com maestria apenas 50% das perguntas, o segundo áudio veio para quebrar as pernas, literalmente. Eu simplesmente me perdi, em tudo.

Vale ressaltar que eu não me preparei TANTO assim, fiz poucos simulados. Julguei ter uma compreensão boa e me dei mal. C’est la vie.

Num geral, as de múltiplas escolhas até que me dei bem. Mas as abertas veeeeeish, tenho até medo do que a pessoa que corrigiu minha prova pensou de mim e do meu francêszinho.

Compreensão escrita:

Aqui tudo foi até que ok. O problema foi o tempo, subestimei-o. O tempo limite é 1h. Mas, até que deu pra fazer bem. Eram dois textos grandinhos até, um mais como “notícia” e o outro mais “argumentativo”. Não lembro agora do que eles se tratavam. Contudo, o vocabulário foi tranquilo. Teve algumas questões que fiquei com dúvidas, afinal era uma interpretação, não necessariamente as respostas estavam escancaradas nos textos.

Não teve muito mistério. Como não tinha feito tantos simulados, acabei me embasbacando com a duração dessa etapa. Mas a dica é treinar, fazer simulados e assim no dia da prova vai ficar mais confortável. É uma etapa bem de buenas, caso esteja acostumado a ler textos em francês etc etc.

Produção escrita:

Essa etapa eu também tinha jogado para a sorte. Como previsto, tive que escrever uma carta (em 1h) e, portanto, já sabia de cor e salteado toda a estrutura e as expressões que deveria usar em cada parágrafo etc etc.

No meu caso, eu precisei escrever uma carta para o prefeito da cidade pois um investimento para o festival de música local tinha sido cancelado e, logo, o evento não iria acontecer. O objetivo da carta era expor os motivos para o festival não ser cancelado e propor formas de fazê-lo acontecer.

Basicamente, o textinho que vinha introduzindo o tema possuía várias dicas de como abordar o prefeito. O que eu fiz foi escrever como o evento contribuía para a economia local, atraindo turistas e fomentando o comércio da cidade. Dai propus fazer uma “vaquinha coletiva com os comerciantes” e cobrar um valor simbólico de entrada (ele costumava ser gratuito) ou algo assim, não lembro muito bem. Lembro de levantar vários pontos positivos do evento e também falar de algumas soluções para levantar o dinheiro com a contribuição da prefeitura.

Então, o primeiro parágrafo ficou como introdução do tema, o segundo para os pontos positivos, o terceiro para a “solução” e um último paragrafozinho para “me despedir” e falar umas coisas clássicas das cartas francesas.

Resultado

Para “passar no DELF”, você precisa de uma pontuação mínima de 50. Cada etapa vale 25 pontos, e é preciso tirar no mínimo 5 em cada uma delas, senão é desclassificado.

Teoricamente, a declaração do resultado é liberada em 40 dias e o diploma em até seis meses após a sessão.

Passados 40 dias do meu teste, eu não tinha recebido email, ligação, nada. Comecei a reparar, nos grupos de facebook, que o resultado da minha sessão, em outros centros, já tinha sido liberado. GELEI. Pensei “já era”. Me ferrei. Não passei. Sonho europeu foi pro beleléu.

Então, eu entrei em contato com a Aliança Francesa de Curitiba. Ignoraram meu email. GELEI, de novo. Dai consegui falar com eles pelo chat do site. Fiquei sabendo que o resultado já tinha saído (OBRIGADA POR AVISAR ANTES u.u) e que eu deveria ir até Curitiba com um documento para ter acesso. Pronto, pensei comigo, vou lá pra receber um tapa na cara.

Isso, eu estava na casa dos meus pais e, nos formulários do teste, tinha colado o endereço do apartamento que moro em outra cidade. Por ironia do destino, naquela semana (do dia 6 de Janeiro de 2017) tive que ir até o meu apartamento. Quando cheguei, dou de cara com o quê? UM fucking ENVELOPE DA ALIANÇA FRANCESA. Gelei. Pensei que como não tinha recebido qualquer notícia nos últimos dias, o envelope estaria trazendo a péssima notícia da reprovação.

Mas, meus caros, nesse processo a sorte esteve ao meu lado. Quando abri o envelope lá estava LINDAMENTE E FORMOSAMENTE minha “Attestation de Réussite”. Fui uma menina muito feliz naquele dia.

Acabei ficando com as seguintes notas:

Compreensão escrita: 21,00/25

Produção escrita: 22,50/25

Compreensão oral: 20,00/25

Produção oral: 24,00/25

Nota final: 87,50/100

Resumidamente, eu passei e fui bem! E, por incrível que pareça, minhas melhores notas foram nas produções! Lembra que eu falei que minha compreensão era ótima? PFFFFFFFF. O importante é que deu tudo certo e o exame nem é um bicho indomável. Conhecendo bem a prova e se preparando bastante dá para fazer bonitinho.

Se tiver alguma dúvida ou quiser saber um pouco mais sobre a minha experiência, pode perguntar! Dá para acessar também o site do CIEP, lá tem muitas informações. Confie no seu francês e voilà! Bonne chance!